Aproveitamento dos resíduos da mandioca para geração de energia elétrica


01-12-15

O uso da biomassa como fonte de energia elétrica está na ordem do dia, assim como qualquer outro produto ou processo que possa contribuir para a produção de energia elétrica, no Brasil e no mundo. No nosso caso não precisamos descer a detalhes, a queda do nível dos reservatórios que abastecem as nossas hidroelétricas, sejam as de pequeno, médio ou grande porte, já é motivo mais do que suficiente para olharmos com mais profundidade e objetividade as demais fontes alternativas de energia elétrica, dentre as quais a biomassa.

A atividade agropecuária gera uma grande quantidade de resíduos, alguns com bom nível de aproveitamento, embora em muitos casos, pouco se aproveite dos mesmos. Dentre os primeiros despontam o bagaço de cana, os resíduos da indústria de celulose e a palha de arroz, usados como combustíveis nas caldeiras das Centrais Termelétricas para geração de energia. De acordo com a ANEEL,  7,5  % da energia gerada no Brasil atualmente vem das termelétricas  que usam a biomassa como fonte de energia. Dentre os que não são aproveitados, muitos ficam no terreno, depois da colheita, contribuindo para a proteção do solo, incremento do teor de matéria orgânica, etc., como é o caso do algodão, da soja, da mandioca, dentre outros.

Todavia, aproveitamentos outros poderiam ser adotados, como por exemplo, a geração de energia elétrica através das Pequenas Centrais Termelétricas – PCTs, dependendo, naturalmente de diversos fatores, dentre os quais os volumes produzidos e a logística de coleta e transporte entre a roça e a usina de processamento.

A quantidade da biomassa deve ser o suficiente para gerar energia capaz de pagar os custos fixos e variáveis e amortizar adequadamente o investimento. Neste artigo focamos a cultura da mandioca, extremamente difundida por todos os estados brasileiros e que normalmente aproveita apenas a raiz, deixando a parte aérea sobre o terreno, para decomposição e incorporação ao solo.

Neste exercício estamos considerando que metade das propriedades que cultivam mandioca em um determinado município, estaria em condições de enviar os resíduos da colheita, a parte aérea da planta, para uma Pequena Central Termelétrica localizada num ponto estratégico do mesmo. A outra metade estaria muito distante ou isolada, o que inviabilizaria a coleta.

A produção de biomassa na cultura da mandioca varia com diversos fatores que não vamos abordar aqui, inclusive a variedade e o clima. Conforme Silva e Ferreira Filho (Produção de biomassa de mandioca – Embrapa.2007),  1 ha de mandioca deixa sobre o solo, depois da colheita das raízes,  95 toneladas de massa verde/ha, dos quais 20 % são aproveitados para replantio. O material restante, 76 t/ha, normalmente com 80 % de umidade, seria enviado para a PCT, equivalendo a 15 t de matéria seca.

Souto et al (Revista Brasileira de Mandioca.1988) encontraram produções da parte aérea variando de 10,77 a 26,18 t de M.S./ha.  Por segurança, adotaremos neste exercício a quantidade de 10 t/ha de M.S.

Para reduzir custos de transporte entre o campo e a PCT, poderia  triturar os resíduos no local de colheita com o objetivo de aumentar a quantidade transportada por viagem, conforme figura seguinte.

Tomando como base um município hipotético cuja área plantada com mandioca seja de  4.000 ha e que apenas metade das propriedades estaria em condições de enviar sua biomassa para a PCT, seriam 16.000 t de matéria seca que entrariam por ano na PCT, ou 1.333 t/mês.

Levando em conta que o poder calorífico da biomassa de mandioca é de 3.764 Kcal/kg de matéria seca, teríamos 5.018.666.667 Kcal/mês. Considerando uma conversão teórica de 3.132 kWh produzidos por Kcal, e estimando que a eficiência da PCT seja de 20 %, a mesma estaria em condições de gerar 320.477 kWh/mês, suficiente para abastecer 1.600 residências com consumo médio de 200 kWh/mês.

Dependendo da forma de organização dos produtores em torno da PCT, a energia gerada poderia ser repassada à concessionária de energia do estado, para compensação nas contas de consumo dos produtores integrantes, proporcionalmente à contribuição de biomassa de cada um.

A implantação de uma PCT com base na biomassa da mandioca começaria por estudos de viabilidade técnica e econômica e da organização dos produtores, o que poderia ser na forma de cooperativas ou associações, nada impedindo, contudo, que prefeituras e até empresas que trabalham com integração se interessem pela sensibilização e atração dos produtores. 

Na tabela seguinte uma relação dos municípios brasileiros que costumam plantar 4.000 ha ou mais de mandioca, alguns com áreas bem mais expressivas, como Santarém, Acará e Juriti no Pará. (Obs.: Solicitar dados via e-mail).

Além dos relacionados na tabela, existem regiões constituídas de pequenos munícipios que, em conjunto, costumam plantar 4.000 ha ou mais de mandioca que, dependendo da logística, também poderiam pensar numa PCT .


  • Fabio Zenaide Maia

    FABIO ZENAIDE MAIA

    Diplomado em Agronomia pela UFV. Trabalhou com a cultura da seringueira e processamento de borracha natural na Bahia, São José do Rio Preto, São Paulo, Libéria e África.…

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