Palha de cana-de-açúcar: A salvação da lavoura canavieira?


25-01-16

O setor sucroenergético brasileiro passa por momentos difíceis nos últimos tempos, devido aos baixos preços de seus produtos principais (açúcar e etanol) e ao seu alto endividamento devido à expansão que ocorreu nos últimos 10 anos com diversas novas usinas entrando em operação.

Este cenário negativo ocorre no momento em que o setor elétrico também passa por grave crise de oferta com alto risco de racionamento e atualmente, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as usinas de açúcar e álcool tem capacidade de 10 GW, respondendo por apenas 7% da matriz elétrica brasileira. Porém com o avanço da mecanização da colheita de cana, uma nova fonte de biomassa está sendo disponibilizada nos canaviais: a palha da cana-de-açúcar.

Dados do Centro de Tecnologia Canavieira mostram que para cada tonelada de colmos de cana-de-açúcar são produzidos 140 kg de palha em base seca, quantidade idêntica ao bagaço disponibilizado ao final do processo de extração do caldo. Como suas composições químicas são praticamente iguais, eles possuem o mesmo poder calorífico, variando apenas em função da umidade.  Considerando-se as condições atuais das caldeiras existentes do setor, é possível gerar 0,7 MWh por tonelada de palha de cana com umidade em torno de 15%.  Com base nestes números e tomando-se apenas a utilização parcial da palha disponível no campo no pós-colheita seria possível gerar aproximadamente 5% do total da energia consumida no Brasil em 2013, praticamente dobrando a energia gerada atualmente pelo setor.

Porém esta biomassa adicional requer um conjunto de operações agrícolas e de industriais que viabilizem sua utilização como combustível nas caldeiras. Estas operações foram introduzidas no Brasil recentemente e não existe atualmente nenhuma operação em grande escala como já ocorrem na Espanha, Dinamarca e outros países europeus utilizando-se palha de culturas agrícolas.

As usinas de açúcar têm optado por duas rotas distintas para o recolhimento da palha. A primeira consiste no transporte da palha junto com a cana picada colhida mecanicamente e posterior separação na usina em Estações de Limpeza a Seco, onde os colmos de cana são separados das folhas através de sistemas de ventilação e a segunda rota é o enfardamento da palha seca ao campo em fardos retangulares, realizado em operação posterior à colheita mecanizada da cana.

Ambos sistemas têm suas vantagens e desvantagens tanto do ponto de vista de viabilidade técnica quanto econômica, porém o enfardamento aponta como melhor solução, de forma geral, principalmente devido à sua melhor capacidade no manuseio de maiores quantidades de palha.

O recolhimento da palha através do enfardamento inicia-se 4 a 7 dias após a colheita da cana, de forma a garantir a redução da umidade da palha de 40% para 15% (umidade ideal para o enfardamento). Assim que a umidade da palha atinge este valor, inicia-se então a sequência de operações agrícolas de recolhimento da palha:

• Aleiramento.

• Enfardamento.

• Recolhimento dos fardos no campo.

• Carregamento dos fardos no caminhão.

• Transporte dos fardos até usina.

Para facilitar o enfardamento e aumentar o rendimento da enfardadora, que é a operação mais cara da cadeia de produção, a palha de cana é agrupada em leiras triangulares através da operação de aleiramento. A enfardadora então recolhe a palha contida na leira, compactando-a em fardos retangulares amarrados com barbantes longitudinais, que são depositados automaticamente no solo para então serem recolhidos por carretas recolhedoras de fardos, que os transportam até os carreadores onde os mesmos são carregados em composições rodoviárias que os transportarão até a usina para seu processamento.

Ao chegarem na usina, são necessárias algumas operações de forma a possibilitar a queima desta palha nas caldeiras. O processamento mais adequado consiste em descarregar os fardos, remover as impurezas minerais e trituração até atingirmos a granulometria adequada que dependerá do tipo de caldeira na qual a palha será queimada.

Um aspecto muito importante no recolhimento da palha do canavial é garantir que a palha removida não impacte negativamente na produção de cana, diminuindo assim a sustentabilidade do processo. Isto é possível através da análise do solo e do clima da unidade de onde a palha será recolhida.

De forma geral, o recolhimento da palha da cana-de-açúcar e sua utilização para a geração de energia elétrica adicional é viável do ponto de vista técnico com o desenvolvimento de uma cadeia logística eficiente, porém a ampla utilização do potencial energético da palha depende ainda de políticas governamentais que incentivem a geração termoelétrica em nossas usinas de açúcar e álcool através de uma política de remuneração mais atrativa aos produtores, mantendo assim uma matriz energética limpa e sustentável.


  • Marcelo Pierossi

    MARCELO PIEROSSI

    Diretor na AgroPerforma Consultoria Agrícola. Universidade de São Paulo. MBA/Agronegócios. Escola Superior de Propaganda e Marketing. MBA/Marketing. Universidade Estadual de…

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