Situação atual do produtor de borracha natural no Brasil


13-08-15

O agronegócio borracha natural está relacionado com uma série de atividades econômicas e setores bastante amplos e variados em todas as regiões do país. Olhando a cadeia de produção vemos os produtores de borracha natural no início da mesma, os fornecedores dos insumos agrícolas, os processadores ou usineiros nos elos intermediários da cadeia, a indústria pneumática e indústria leve em seguida, o comércio e, finalmente, os consumidores na outra extremidade.

Os produtores de borracha natural, na base da cadeia, podem ser classificados de acordo com o porte em Produtores Familiares, Pequenos Produtores, Médios Produtores e Grandes Produtores. O produtor familiar não usa mão de obra de terceiros, ele mesmo mantém e explora o seringal, podendo usar outras pessoas da família e, por isso mesmo, gera um baixo volume de produção e renda. Os demais grupos usam mão de obra de terceiros e produzem quantidades de borracha crescentes à proporção que se avança na escala.

Do preço recebido pela venda da sua borracha bruta, uma parte é direcionada para pagamento da mão de obra, outra para aquisição dos insumos e materiais necessários à produção e o que sobrar representa a margem operacional do produtor rural. A cada ano que passa, aumenta a fração que deve ser direcionada para pagamento da mão da obra e aquisição dos insumos, enquanto se reduz o lucro do produtor.

As usinas, situadas nos elos intermediários da cadeia, conseguem administrar os seus custos e preços. Do valor que recebem da indústria, quando vendem a borracha processada, seja GEB, Látex Centrifugado ou qualquer outro tipo, destacam uma parte para cobrir os custos de produção, outra para formar o lucro do seu negócio, repassando o restante ao produtor. Usinas mais eficientes conseguem gerar uma fração maior para remunerar ao seu fornecedor, e ainda auferir lucros razoáveis. Usinas de menor produtividade e maiores custos pouco conseguem repassar aos seus fornecedores que terminam sendo prejudicados pela ineficiência da usina. Com o tempo, esta usina termina perdendo seus fornecedores, sendo obrigada a fechar as portas.
As indústrias, mais organizadas e vendendo para um grande número de consumidores, conseguem formar os preços de vendas de modo a cobrir todos os seus custos de produção, assegurar margens razoáveis de lucros e pagar às usinas pela matéria prima.

Aos consumidores resta a liberdade de pesquisar no mercado, dentre os vários fabricantes, o produto que melhor se encaixa nas usas possibilidades de compra. Vemos, assim, que os produtores são os únicos que não conseguem repassar custos, sendo obrigados a assimilar os preços recebidos das usinas.

Em defesa do produtor, que representa o elo mais fraco da cadeia produtiva, foi instituído o Preço de Referência, uma conquista da APABOR – Associação Paulistas dos Produtores e Beneficiadores de Borracha, que sugere uma faixa de preços para a borracha bruta e borracha processada, variável de acordo com o preço da borracha importada e do dólar. Não se pode mencionar o Preço de Referência sem registrar o nome do saudoso Jayme Vasquez, um dos que mais lutaram e se empenharam pela sua instituição.

O gráfico seguinte apresenta a evolução dos preços médios da borracha bruta, tipo coágulo com 53 % de borracha seca, nos últimos 3 anos, mostrando uma tendência declinante ao longo do período. Esta curva poderia ser aplicada aos preços da borracha beneficiada, seja no Brasil ou na Malásia, não havendo dúvidas que o preço desta commodity se encontra numa situação descendente.

De acordo com o Preço de Referência, o produtor tem recebido cerca de 30 a 40 % do preço recebido pela usina. O sangrador é uma mão de obra especializada cuja disponibilidade vem reduzindo nas diversas regiões produtoras do Brasil. A oferta cada vez menor de sangradores, tem obrigado o produtor a aumentar a remuneração da mão de obra, como forma de assegurar a sua continuidade no seringal, o que termina por reduzir a margem do produtor.

Ao produtor resta se adaptar a esta situação, sob pena de ficar sem poder explorar o seu seringal, por falta de sangrador. O caminho mais utilizado tem sido o de reduzir a frequência de sangria e aumentar a quantidade de árvores sangradas/por sangrador/dia. Hoje não é raro encontrar seringais sendo cortados a cada 10 dias, com cerca de mil ou mais árvores/dia/sangrador e uso intensivo de estimulantes da produção. Desta forma, um sangrador que responderia por cerca de 4.000 árvores no sistema de sangria a cada 4 dias, passa a dar conta de 10.000 árvores.

O grande produtor, aquele que tem escala de produção suficiente para viabilizar uma usina de processamento pode partir para esta alternativa, desde que tenha capacidade empresarial para uma mudança de status desta natureza. Verticalizando a sua produção e consegue auferir uma margem operacional que antes seria inviável.

Montar e operar uma usina, contudo, não é tarefa fácil e exige um certo investimento em instalações e equipamentos. Além disso, operar uma usina de beneficiamento de borracha natural implica em gestão profissional reconhecidamente capacitada, em diferentes áreas, como processamento, vendas, administração de estoques, etc.

Os produtores cujas produções estão muito abaixo da necessária para viabilizar o investimento em uma nova usina, poderiam pensar em associações ou cooperativas de beneficiamento, desde que consigam agregar um grupo cuja produção total viabilize economicamente o investimento.

Uma outra alternativa, não tão fácil mais não impossível, seria a união de um grupo de produtores em torno de uma usina já existente. O usineiro abriria a sua usina para incorporar novos sócios que trariam grandes volumes de matéria prima, reduzindo custos de produção e aumentando a renda de todos os envolvidos. Parece difícil e complicado mas não seria impossível. Em tempos de apertos, vale estar abertos para estudar todas as alternativas.


  • Fabio Zenaide Maia

    FABIO ZENAIDE MAIA

    Diplomado em Agronomia pela UFV. Trabalhou com a cultura da seringueira e processamento de borracha natural na Bahia, São José do Rio Preto, São Paulo, Libéria e África.…

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