Vamos ficar dependentes até quando?


29-04-16

Sabe o que é engraçado, ou melhor, nada engraçado, é ganância ou o oportunismo que acaba levando produtores a investirem no plantio de uma floresta com a pretensão de altos lucros baseado em uma única matriz consumidora e depois reclamar que a matriz faliu e agora não sabe o que fazer com a sua floresta. Ou que plantou longe e ninguém quer vir comprar. Vide o que está acontecendo atualmente com o estado de Minas Gerais que tem a maior área de florestas plantadas de eucalipto do Brasil. Durante anos se baseou no consumo das siderúrgicas e na produção de carvão. Hoje as siderúrgicas mineiras simplesmente desapareceram e os produtores estão com suas florestas encalhadas, sem contar o grande número de viveiros e pequenas empresas prestadoras de serviço fechadas. Será que eles esqueceram que a madeira de eucalipto, como diz muito bem o diretor executivo da ABAF, Wilson Andrade, “a madeira do deus eucalipto”, tem muitas outras finalidades? Onde estão as serrarias, as empresas de transformação, a produção de biomassa? Esta é uma luta que vivenciei recentemente na Bahia, as entidades preocupadas em diversificar o uso da madeira. E olha que a Bahia importa 70% de toda a madeira consumida no estado. Bem diz o palestrante Pedro Francio Filho, da Unisafe Consultoria, em sua palestra no Programa Mais Árvores da CNA, que apresenta os vários caminhos do uso da madeira e o plantio de florestas de múltiplo uso, “que o produtor não pode ficar refém de um único comprador”. Em Mato Grosso do Sul, segundo a Reflore (Associação Sul-Mato-Grossense dos Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas), existem 350.000 hectares de florestas plantadas por pequenos e médios produtores rurais a serem colhidas nos próximos anos que não têm qualquer ligação com as grandes empresas de celulose instaladas no Estado. Para quem vão vender? Quem são as empresas que estão chegando no Mato Grosso do Sul e também em outros estados? Seria a matriz energética um caminho? Além da celulose, o que mais exportamos? Por que se fala tanto em energia eólica, energia de biomassa de bagaço de cana e não se ouve falar em lugar nenhum, ou muito pouco, da energia limpa e renovável do eucalipto? Mais uma vez, será que nós estamos órfãos de entidades que representem os pequenos e médios produtores rurais para que elas possam ajuda-los a ver uma luz no fim do túnel? Pelo que sabemos pelo menos os grupos de investidores estrangeiros já visualizaram esta nova matriz energética e estão vindo com tudo. Mas vão comprar cavaco de quem? Estão os produtores unidos para se apresentarem como solução para o fornecimento de matéria-prima para estas novas empresas? Mais uma vez se referindo a Mato Grosso do Sul, o fato de uma única empresa produtora de celulose estar comprando florestas no estado tem feito com que o preço negociado fique abaixo do esperado pelos produtores e alguns já estão saindo do negócio, estão hoje à procura de empresas para tirar os tocos de árvores deixados na colheita, pois segundo eles, nem conduzindo a floresta compensa seguir adiante. Mas nem só pelo fato de estarem hoje a mercê de um único comprador, mas também porque não conseguem visualizar mais à frente, e mais à frente na silvicultura são 7 anos. Estariam as empresas “matando” as galinhas dos ovos de ouro do setor florestal? Porque não diversificar a matriz consumidora? O que falta? Porque muitos produtores plantaram florestas tão longe dos mercados consumidores? Falta de informação? Quantas perguntas não é mesmo? E qual a resposta que temos para elas? Uma delas seria a máxima de que é preciso saber primeiro para quem você vai vender a sua floresta para depois plantar. Mas não são as florestas que atraem as indústrias? Então como não plantar antes e apostar no futuro? Bem, para quem não tem que quitar o empréstimo do banco tudo bem, como acontece com os fundos de investimentos, mas os pequenos e médios que recorrem a empréstimos bancários, aí já complica, se não tiver para quem vender fica inadimplente. É só olhar para os vários estados e ver que onde tem indústria a floresta vai muito bem obrigado. No Rio Grande do Sul os produtores não têm para quem vender, por lá o governo não ajudou nada e até afugentou empresas, estão sem perspectivas. Termino com mais uma pergunta: onde estão os governos e onde estão as entidades representativas? Ou vamos deixar que os produtores rurais continuem quebrando e rezando para que um milagre aconteça e ninguém mais consuma as árvores da floresta amazônica? Que tal se espelhar no exemplo da Argentina onde não tem indústria de celulose nem siderúrgicas e o eucalipto é usado para centenas de outros fins comerciais substituindo muito bem as madeiras nativas?  


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