Não é fogo de palha

Não é fogo de palha


29-12-15 Biomassa

Confinamentos de SP substituem, com sucesso, o bagaço da cana pela palhada e reduzem custos das dietas com volumoso.

Com o seu preço nas alturas desde que passou a ser largamente utilizado em projetos de cogeração de energia elétrica, o bagaço de cana-de-açúcar vem sendo substituído por outras fontes de fibra em dietas de confinamento, sobretudo em sistemas de engorda intensiva localizados no Sudeste, onde se concentra o parque industrial sucroalcooleiro do país. Dois grandes confinamentos do interior de São Paulo – Companhia Agropecuária Monte Alegre (CMA), em Barretos, e  Agro-Pastoril Paschoal Campanelli, em Altair – aboliram o bagaço da dieta de volumoso para apostar todas as fichas em um outro subproduto da cana-de-açúcar, encontrado em abundância nos canaviais, mas até então nunca utilizado na dieta de cocho, pelo menos em grande escala: a palhada da cana.

"Hoje, um confinamento da região que lança mão do bagaço de cana é um empreendimento mal planejado", diz Victor Paschoal Cosentino Campanelli, proprietário da Agro-Pastoril Paschoal Campanelli, que prevê confinar em torno de 55.000 bovinos este ano. Compartilha da mesma opinião André Luiz Perrone dos Reis, dono da Companhia Agropecuária Monte Alegre. "Desde 2003, o bagaço reinava absoluto em nossas dietas de alto concentrado, mas o seu preço de mercado, outrora simbólico, foi subindo até atingir valor proibitivo, em torno de R$ 150 por tonelada", avalia o proprietário da CMA, que pretende atrair para os currais da fazenda de Barretos em torno de 25.000 animais, a maioria deles (70%) oriunda de parceiros (sistema de boitel). 

Diante dos preços estratosféricos do bagaço, os dois confinamentos, que rodam o ano todo, sem interrupções, decidiram adotar a palha como fonte exclusiva de volumoso. “Primeiro fizemos testes, misturando pequenas proporções de palha (2,5%) com o bagaço, e daí fomos aumentando esse percentual gradativamente até atingir os 100%”, conta Perrone, que se considera o pioneiro no uso comercial da palhada na ração, estratégia iniciada em abril do ano passado, a partir do início da colheita da última safra de cana.  “De fato, eles saíram um pouquinho na frente da gente”, admite Campanelli, que começou a utilizar a palha (em substituição ao bagaço) em agosto do mesmo ano.

Cultivo próprio.

Além da atividade de engorda intensiva, a CMA e a Agro-Pastoril Paschoal Campanelli produzem cana, em 500 e 8.000 ha, respectivamente. Enquanto o confinamento de Barretos também aproveita a palhada de canaviais de outros produtores da região, fornecendo em troca adubo orgânico gerado a partir de dejetos dos animais confinados, os Campanelli são autossuficientes na produção da fibra, recolhendo um pouco menos de 5 toneladas de palha por hectare. "Nossos canaviais produzem em torno de 10 toneladas por hectare de palha, ou seja, ainda deixamos metade da palhada no chão", afirma Campanelli.

Segundo o proprietário da CMA, a ideia de aproveitar a resteva da cana começou a amadurecer depois que ele visitou, em 2013, a Agritechnica, em Hannover, na Alemanha, onde viu de perto máquinas de fenação de última geração, equipadas com um sistema denominado "PreChop", capaz de colher, picar e enfardar forragens. Nessa época, máquinas similares às exibidas no evento alemão já operavam com frequência nas lavouras de milho dos Estados Unidos, na retirada da palhada do grão.

Ao mesmo tempo, com o amento da mecanização na colheita da cana e a diminuição da prática de queima da palha, crescia o interesse dos próprios fabricantes mundiais de máquinas pelo aproveitamento do subproduto deixado nos canaviais brasileiros, o que incentivou a busca por melhores técnicas de colheita e transporte do resíduo, que a princípio seria explorado unicamente para cogeração de energia, juntamente com o bagaço.

A partir daí, Perrone enxergou outro nicho interessante: se as máquinas estavam sendo desenvolvidas para recolher e picar a palha para cogerar, isso nada mais é que um feno de palha da cana, pensou ele, na época. Assim, a CMA conseguiu fechar algumas parcerias com fabricantes de enfardadeiras de forragens, que colocaram as suas máquinas de última geração para rodar nos canaviais da propriedade, com o intuito de promover os ajustes e adaptações necessárias de peças nas máquinas de feno já existentes. "Abrimos as portas da Estância Monte Alegre para ajudá-los no aperfeiçoamento do maquinário, que foi desenvolvido para suportar a maior robustez da palha, mais abrasiva do que o capim", conta Perrone, revelando parceria com três fabricantes: Krone, Kuhn e Challenger.

Enfardadeiras.

Hoje, a CMA opera com duas máquinas enfardadeiras (das marcas Kuhn e Challenger), que retiram a palha do campo após a colheita da safra de cana e a passagem de uma máquina de enleirar (equipamento também fundamental no processo de colheita do resíduo). Um conjunto de facas acoplado na frente da máquina enfardadeira (sistema de PreChop) corta previamente a palha em pequenas partículas, que são recolhidas para dentro do equipamento e transformadas em grandes fardos de 300 kg, no formato de cubos, que são novamente despejados no campo. "Este material fica pronto para o uso, sendo posteriormente misturado aos outros componentes em nossa fábrica de ração", afirma Perrone, acrescentando que o fardo pode ser estocado a céu aberto, por ser tratar de um produto altamente compactado, impossibilitando a entrada de água em seu interior.

Como os confinamentos da CMA e a Agro-Pastoril Pachoal Campanelli são mantidos em operação o ano todo, é necessário fazer a estocagem dos fardos de palha na fazenda, para suprir o período de entressafra da cana, de outubro-novembro a abril-maio. No atual momento, os dois confinamentos utilizam as últimas toneladas dos estoques remanescentes da safra passada e começam a recolher a nova palhada deixada no solo pela safra atual.

Victor Campanelli, que opera também com duas enfardadeiras de palha da cana, ambas fabricadas pela Krone, afirma ter investido 300 mil euros em cada uma delas (em torno de R$ 900.000). Nessa conta, é preciso acrescentar o valor gasto com a compra da máquina de enleirar a palha no campo, próximo a R$ 180.000, e o uso de tratores (com potência de 370 cv), que puxam as enfardadeiras. Além disso, há de se considerar o custo operacional do enfardamento, que, segundo Campanelli, gira ao redor de R$ 90 por tonelada (diesel, manutenção, depreciação, etc). "O fato de os resíduos estarem disponíveis gratuitamente não faz dos fardos de palha um produto barato, muito pelo contrário", pondera Campanelli.

Custos menores.

No entanto, a despeito dos altos investimentos gerados pela produção da palha, o subproduto proporciona redução de custos em relação às outras fontes de volumosos, como o próprio bagaço da cana e a silagem de milho, garante o zootecnista Luciano Morgan, um dos consultores nutricionais da CMA. Segundo ele, a principal vantagem da palha da cana sobre os dois ingredientes citados acima é que ela possui um baixíssimo nível de umidade, o que lhe garante um teor de matéria seca de 86%, quase o dobro do percentual do bagaço da cana, de 50% (no caso da tonelada de silagem de milho, o teor de matéria seca é de apenas 30%).

Ou seja, ao comprar das usinas uma tonelada de bagaço, por R$ 150, o confinador leva para cocho apenas 50% de matéria seca; a outra metade é água. No caso da palha de cana, o seu custo de aquisição no mercado _ além do uso próprio do subproduto no confinamento, a CMA passou a comercializar o excedente da produção a terceiros (veja texto na página 72) _ gira ao redor de R$ 220 a tonelada, valor 45% superior ao preço da tonelada do bagaço. Porém, uma tonelada de palha picada contém 86% de matéria seca e 12% de água.

"No cálculo de custo de um volumoso, é preciso considerar o valor da tonelada de matéria seca, e não somente o preço comercial da matéria-prima", afirma Morgan. Assim, levando-se em conta apenas o custo da tonelada de matéria seca, a compra da palha no mercado resultaria numa despesa de R$ 255,81, ante R$ 300 do bagaço e R$ 466,61 da silagem de milho (veja tabela abaixo). Portanto, o uso da palha representa uma economia de custo com volumoso ao redor de R$ 45/tonelada em relação ao uso do bagaço, informa o consultor da CMA.

Sem revelar detalhes dos custos gerais do confinamento da CMA, Morgan diz que, levando-se em conta os ingredientes da dieta, o uso da palha da cana resultou numa economia para o sistema de R$ 7/animal confinado, ou de R$ 175.000 no total, considerando um universo de engorda ao redor de 25.000 cabeças ao longo do ano. "Além de não ficarmos expostos ao mercado do bagaço, conseguimos economizar nos gastos com volumoso, sem que fosse comprometido o desempenho dos animais no cocho", destaca o consultor.

Segundo dados de 2014, com a introdução da palha, o ganho de peso se manteve em 1,66 kg/cabeça/dia no confinamento da CMA, com o consumo médio de 11,42 kg de matéria seca por dia (equivalente a 2,4% do peso vivo), durante o período médio de 107 dias de cocho _ na ocasião foram terminados em torno 20.000 animais, que registraram peso médio de 375,70 kg na entrada e de 553,60 kg na saída.

Victor Campanelli também diz estar satisfeito com os resultados de ganho de peso após a opção pela palha. Em 2014, quando confinou 43.000 animais, a dieta em 108 dias de cocho proporcionou ganhos de 1,53 kg/cabeça/dia, com consumo médio diário de 10,20 kg de matéria seca. Os animais ingressam no cocho com peso médio de 367,18 kg e registraram peso de saída de 533,27 kg.

Além do baixo teor de umidade, a palha apresenta níveis de proteína e de energia superiores aos do bagaço da cana. Segundo o consultor Luciano Morgan, o valor de proteína bruta na palha é de 3,84%, ante 1,36% do bagaço (veja tabela). Isoladamente, o resíduo dos canaviais apresenta NTD (Nutrientes Digestíveis Totais) de 52,18%, enquanto no bagaço o teor de energia é de 40,60%.

Dieta energética.

Os dois confinamentos trabalham com dietas com alto nível energético, tendo o milho como ingrediente principal. No caso da CMA, a proporção de volumoso/concentrado na ração é de 8,6% e 91,4%, respectivamente, o que resulta num teor final de energia (NDT) de 78,2%. Os principais insumos são milho grão seco moído, germen de milho, farelo de glúten de milho, polpa cítrica, melaço de soja, além de ureia, núcleo mineral e ureia de liberação lenta ("optigen").

No confinamento dos Campanelli, o teor de volumoso (palha) na dieta é um pouco superior, de 13%, com destaque para o uso de silagem de grão úmido, responsável por 60% do concentrado. Juntamente com outros ingredientes, como farelo de amendoim, torta de algodão, polpa úmida de laranja, a dieta também garante um alto teor energético, com NDT de 78,3%.

Excedente resulta em nova unidade de negócios.

O sucesso do projeto de produção da palha de cana levou a Companhia Agropecuária Monte Alegre a criar uma empresa para comercialização do subproduto, a CMA Feeds, sediada no mesmo local, em Barretos, SP. Das 8.000 toneladas de fardos de palha picada previstas para serem produzidas nesta nova safra de cana, que se iniciou no mês passado, a empresa pretende direcionar 2.630 toneladas para uso próprio, despejando o material na dieta dos animais (próprios e de terceiros) em confinamento. O restante, 5.370 toneladas, estará à disposição de outros confinadores também interessados no uso da fibra.

Feno – Além da palha, essa mesma unidade de negócios vai comercializar dois outros produtos para alimentação do gado: o Feno Tifton 85 tradicional (em "fardinhos" de 18 kg) e o Feno Picado Tifton 85 (Fardos de 400 kg), esse último, outra novidade da CMA. Os fardos de feno picado são produzidos pelas mesmas máquinas que trabalham com a palhada. "É uma exclusividade nossa; ninguém vende feno picado no mercado", diz André Perrone, o proprietário da CMA, que mantém 125 hectares de capim tifton na Estância Monte Alegre. Segundo ele, além de serem comercializados ao mercado, os fenos picados estão sendo usados no próprio confinamento, entrando exclusivamente na dieta de adaptação (duração de 15 dias), com objetivo de reduzir o número de refugos do cocho.

Victor Campanelli, o proprietário da Agro-Pastoril Paschoal Campanelli, de Altair, SP, também tem interesse em criar um projeto paralelo relacionado ao aproveitamento da palha de seus canaviais. "Estudamos a possibilidade de investir, futuramente, na construção de uma termoelétrica em nossa propriedade, para cogeração de energia a partir da palha", conta ele, acrescentando, porém, que esse projeto é avaliado com bastante cautela, em razão do alto valor de investimento.

Campanelli diz estar de olho no potencial energético da palha, que possui quase o dobro do poder calorífico do bagaço da cana. "Uma tonelada de palha é capaz de gerar um megawatt de energia, ao passo que, no caso do bagaço, são necessárias 2 toneladas para produzir a mesma quantidade de energia", compara.

* Matéria originalmente publicada na Revista DBO de junho de 2015 (páginas 68 a 72).

Portal DBO

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